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Poppy
Days.2025

Poppy Days — Isabel Garcia
POPPY DAYS / GALERIA DIFERENÇA / 2025
01 / A EXPOSIÇÃO

Entre a memória
e o esquecimento.

Na Sala Triângulo da Galeria Diferença, cápsulas de sementes de papoila, hastes e grandes campos de cor cruzam gestos de guardar, nutrir e fazer germinar.

A instalação reúne cinquenta sacos de armazenamento de leite materno com cápsulas intactas ou esmagadas. Nas pinturas, os rebentos e as palavras L’OUBLI e LA MÉMOIRE prolongam a tensão entre aquilo que permanece e aquilo que se dissolve.

03 / TEXTOS DA EXPOSIÇÃO

Memória em palavras.

POPPY DAYS / 2025

Comentários

POPPY DAYS / 2025

Sobre a exposição Poppy Days

POPPY DAYS / 2025

Sobre as pinturas

MATERIAIS E INFORMAÇÕES
Instalação
50 sacos de armazenamento de leite materno com cápsulas de sementes de papoila, intactas e esmagadas.
Pintura com cápsulas de sementes
113 × 200 cm.
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POPPY DAYS / TEXTO
POPPY DAYS · 2025

Comentários

As duas pinturas dialogam entre si como espelhos que refletem dois estados de um mesmo mar interior — ou talvez duas camadas da memória e do esquecimento.

Na primeira imagem, “L’OUBLI”, o azul profundo domina, denso, quase oceânico. A palavra “esquecimento” surge como uma fenda discreta, escrita no limite entre dois planos cromáticos: o de cima, mais terroso, verde-oxidado, que lembra a corrosão do tempo; e o de baixo, submerso, saturado de azuis. O efeito é de mergulho: um afundamento no silêncio onde as marcas do tempo se dissolvem.

Na segunda, “LA MÉMOIRE”, a luz é mais presente. O azul é mais claro, vibrante, marcado por gestos rápidos e rasgos de cor quente que irrompem como fragmentos sobreviventes. A palavra “memória” aparece no mesmo limiar entre superfícies, mas aqui não é uma descida, é uma flutuação — como se o que resta tivesse sido resgatado à superfície.

Se a primeira pintura é mais noturna, subterrânea, evocando o apagamento, a segunda é diurna, quase solar, evocando a persistência do que resiste ao tempo. Uma contraposição poética: esquecimento como abismo, memória como claridade.

POPPY DAYS / TEXTO
POPPY DAYS · 2025

Sobre a exposição Poppy Days

Sinopse

Isabel Garcia apresenta a exposição POPPY DAY na sala triângulo da galeria Diferença, onde a memória e o esquecimento se entrelaçam em gestos visuais e simbólicos.

A instalação composta por sacos de armazenamento de leite materno, que guardam cápsulas de sementes de papoila — algumas intactas, outras esmagadas — evocam por um lado fragilidade, e em simultâneo a força da perseverança. Apresenta-se como um arquivo em estado de suspensão, um repositório daquilo que ainda não aconteceu, mas que podem em qualquer momento germinar.

Por outro lado, nas pinturas de grandes dimensões, o espaço desdobra-se como um campo feito de camadas sobrepostas, onde irrompem brotos de papoilas que evocam inevitavelmente o rememberence day , ou seja, a resistência da memória colectiva, contra o esquecimento.

evocada a persistência da memória através da criação de um ambiente vegetal, onde vegetais e rebentos revelam a persistência da vida e da memória que insiste em brotar. A inscrição das palavras L’OUBLI e LA MÉMOIRE, confrontando o espectador com a tensão entre o que permanece e o que se dissolve. Entre sementes, rebentos e horizontes de cor, POPPY DAY propõe uma reflexão sensível sobre a memória como um espaço vivo, sempre em risco de desaparecer e sempre pronto a renascer.

Sobre a exposição

Na exposição “POPPY DAY”, o percurso começa com os 50 sacos de armazenamento de leite materno. Nesse início, a memória aparece no seu estado mais frágil e vital: o gesto de nutrir, de guardar para o futuro. Dentro dos sacos, cápsulas de sementes de papoila — algumas intactas, outras esmagadas — transportam a tensão entre plenitude e perda, entre a promessa de vida e a impossibilidade de preservá-la intacta. Aí já se inscreve a questão central: como guardamos o que inevitavelmente se transforma?

Das sementes emergem depois as pinturas de hastes e rebentos, onde o vegetal insiste em nascer, mesmo em superfícies áridas ou repetitivas. São imagens da persistência, do ciclo natural, da memória que se reinscreve no corpo da terra. Aqui a memória já não é apenas depósito, mas também fluxo vital, broto que insiste contra o esquecimento.

Esse percurso culmina nas pinturas que trazem inscritas as palavras “L’OUBLI” e “LA MÉMOIRE”. Nelas, a tensão entre memória e esquecimento encontra a sua forma mais abstrata e essencial: grandes campos de cor, abismos de azul, vibrações de turquesa e laranja. O olhar mergulha entre o peso do esquecimento e a leveza instável da memória. São como horizontes interiores — um lugar onde a lembrança se afunda e onde, ao mesmo tempo, reaparece sob outras formas.

Assim, o conjunto da exposição forma um movimento contínuo:
- do leite e da semente — símbolos do nutrir e do germinar, do que se transmite, mesmo que vulnerável;
- ao rebento — a memória que insiste em crescer;
- até à superfície imensa da cor, onde memória e esquecimento se tornam espaço de contemplação.

Tudo parece orbitar em torno da mesma pergunta: o que permanece e o que se perde?
Entre o esquecimento e a memória, entre a semente esmagada e o rebento vivo, entre a superfície do azul profundo e o turquesa em movimento, a exposição torna-se um campo onde o efémero ganha uma monumentalidade silenciosa.

POPPY DAYS / TEXTO
POPPY DAYS · 2025

Sobre as pinturas

Entre cápsulas e silêncio

A tela de 113 x 200 cm ergue-se como um campo expandido, onde o olhar oscila entre a densidade da matéria pictórica e a delicadeza das hastes que se elevam. O fundo, feito de camadas de azuis, verdes e ocres, parece oscilar entre céu e terra, água e chão — uma superfície onde o tempo se sedimenta em manchas, veladuras e ritmos de cor.

Neste espaço vibrátil, erguem-se as hastes verticais, finas, quase frágeis, mas persistentes. No topo, as cápsulas de papoila, pintadas em tons escuros, condensam uma presença silenciosa. São fragmentos de memória, pequenos arquivos da natureza que guardam em si a promessa de sementes.

O contraste é decisivo: de um lado, a pintura matérica, em expansão, que respira e se move como líquido; do outro, as linhas eretas que fixam o espaço, ancorando a visão no gesto repetido da verticalidade. É como se a obra encenasse o diálogo entre fluxo e permanência, entre a instabilidade do fundo e a resistência das formas.

As cápsulas de papoila convocam o paradoxo da planta: nelas corre uma seiva que pode adormecer, mas são também reservatórios de futuro, guardando a resiliência da vida. Aqui, esse paradoxo transforma-se em linguagem visual: as cápsulas aparecem quase imóveis, imóveis como testemunhas, enquanto o campo pictórico que as envolve vibra com movimento e energia.

Não há dramatismo, mas antes uma contenção meditativa. A pintura afirma-se como lugar de vigília: o espaço onde a memória resiste ao esquecimento, onde a fragilidade se torna força, onde o silêncio é carregado de futuro.

Arquivo de sementes, arquivo de memória

A pintura apresenta-se como um grande arquivo vivo. As cápsulas de papoila, suspensas no alto das hastes, guardam sementes invisíveis ao olhar. Cada cápsula é um cofre, um repositório daquilo que ainda não aconteceu — um futuro em potência, inscrito em formas frágeis que só aparentemente repousam.

Tal como as sementes preservam a continuidade da vida, também a memória preserva a experiência contra a erosão do tempo. A cápsula é então metáfora de arquivo: contém o inapreensível, aquilo que não se vê mas que pode, a qualquer instante, germinar.

O fundo vibrante, com a sua matéria pictórica instável, corresponde ao fluxo incessante da história: uma superfície em movimento, onde se inscrevem marcas, sobreposições, camadas de tempo. Nesse espaço instável, as hastes verticais funcionam como colunas de memória, linhas que fixam, registam e guardam.

Se o arquivo de sementes garante a sobrevivência biológica, o arquivo de memória assegura a persistência simbólica. Ambos enfrentam a mesma tensão: entre conservar e perder, entre guardar e deixar escapar.

Na pintura, este duplo arquivo manifesta-se como diálogo entre o visível e o invisível: as cápsulas estão lá, densas, tangíveis; mas o que guardam — sementes, futuro, lembrança — permanece oculto, invisível. É nesse hiato que se abre a dimensão poética da obra: o reconhecimento de que toda a memória é também promessa, e que o futuro germina a partir daquilo que se preserva.

Colunas de memória

As hastes que se erguem no espaço pictórico não são apenas elementos vegetais: elas assumem a função de colunas de memória. Tal como os pilares de uma arquitetura invisível, estruturam o campo de cor instável e vibrante, oferecendo-lhe um eixo, uma gravidade, uma verticalidade.

Cada coluna é singular, ligeiramente inclinada, ondulante, mas mantém-se firme, como se resistisse ao fluxo do fundo que ameaça dissolver-se. Essa verticalidade não é apenas física: é também simbólica. São colunas que sustentam o peso da lembrança, linhas que impedem que o passado se desfaça no mar indistinto do esquecimento.

Se o fundo pictórico sugere o tempo em movimento — camadas que se sobrepõem, cores que se misturam, sinais que se diluem — as colunas emergem como inscrições, como gestos de permanência. Elas recordam que a memória não é apenas acúmulo, mas também ato de erguer: levantar algo contra a corrente, fixar no espaço aquilo que poderia ser arrastado.

As cápsulas no topo dessas colunas acrescentam outra dimensão: são cabeças, cofres, arquivos suspensos. Guardam sementes como quem guarda palavras, testemunhos ou histórias. Assim, as colunas transformam-se em monumentos íntimos, frágeis mas persistentes, onde o natural e o humano se encontram: a planta torna-se arquitetura, a cápsula torna-se arquivo.

Paul Ricoeur escreveu: «O dever de memória é o dever de fazer justiça, pela lembrança, a um outro que não o eu» (La mémoire, l’histoire, l’oubli). É nesta dimensão ética que as colunas de memória da pintura se inscrevem: erguem-se como testemunhas silenciosas, não apenas de si próprias, mas também de todos aqueles cujas histórias poderiam perder-se no esquecimento.

No conjunto, a pintura apresenta-se como uma paisagem de colunas de memória: não monumentais, mas delicadas, múltiplas, ancoradas no instável. São sinais de resistência silenciosa, testemunhas que se mantêm de pé mesmo quando tudo ao redor se move.